5 de novembro de 2012

SPM abre chamada pública para pesquisa acadêmica sobre direitos das mulheres




SPM abre chamada pública para pesquisa acadêmica sobre direitos das mulheres

Estudo científico será viabilizado mediante parceria da SPM com universidades federais para análise de banco de dados da Ouvidoria da Mulher, composto por mais de 5 mil processos. Edital prevê aporte de R$ 100 mil para realização de pesquisa

Clique aqui para acessar a íntegra da chamada pública


A partir desta quinta-feira (01/11) até 15 de dezembro, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) estará recebendo propostas para realização de pesquisa sobre a garantia de direitos das mulheres e a evolução das políticas para a igualdade de gênero no Brasil. O material a ser analisado faz parte do banco de dados da Ouvidoria da Mulher, da SPM, composto por mais de 5 mil demandas registradas no período 2003-2012.

A pesquisa será viabilizada mediante parceria da SPM com universidades federais. O projeto de pesquisa objeto da chamada pública corresponde ao montante de R$ 100.000,00 (cem mil reais). O período de contratação é de janeiro a novembro de 2013.
As propostas deverão ser entregues ou enviadas até 15 de dezembro de 2012, no endereço abaixo:

Secretaria de Políticas para as Mulheres- aos cuidados da Ouvidoria
Endereço: Via N1 Leste S/nº, Pavilhão das Metas
Praça dos 3 Poderes
Zona Cívico-Administrativa
CEP 70150-908 - Brasília - DF

Quaisquer esclarecimentos ou informações adicionais deverão ser solicitadas por escrito ao endereço eletrônico pesquisaouvidoria@spmulheres.gov.br especificando no assunto "PESQUISA OUVIDORIA".

Base para a pesquisa - Dentre as atividades a serem desenvolvidas estão: levantar, analisar e categorizar os dados das demandas formuladas à Ouvidoria de 2003 a 2012, partindo do Manual de Tipificação da Ouvidoria; construir banco de dados da Ouvidoria avaliando o atual sistema de dados da mesma e produzindo subsídios para a instalação de um novo sistema de registro de demandas e, inclusive, desenvolvendo manual com instruções para utilização e atividades de capacitação; realizar levantamento sobre os principais marcos político-institucionais do processo de consolidação da política para as mulheres no Brasil com ênfase no Governo Federal, de 2003 a 2012; entre outras detalhadas na íntegra da chama pública.

São temas que compõem o acervo da Ouvidoria da Mulher: relações de trabalho, previdência social, comunicação e mídia, enfrentamento à violência contra as mulheres, educação e saúde. As demandas registradas se referem aos seguintes públicos: mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, lésbicas, mulheres deficientes, meninas e adolescentes, mulheres rurais e brasileiras no exterior.

Acervo Ouvidoria da Mulher - Desde o início das atividades em junho de 2003 até o final de 2011, a Ouvidoria da Mulher recebeu 5.012 casos. A média de demandas recebidas no ano de 2011 foi de 109,3 casos/mês. Todavia, é importante considerar que uma mesma comunicação da demandante pode conter mais de uma demanda (solicitação de informação, reclamação sobre serviço e solicitação de intervenção, por exemplo), dando origem a diversos desdobramentos.

Os casos que a Ouvidoria recebe são, portanto, bastante complexos, pois envolvem uma dimensão que é pessoal da demandante (resposta à sua solicitação, orientação ao problema vivenciado) e uma dimensão político-institucional (análise do conjunto de demandas, elaboração de subsídios para a formulação e avaliação das políticas públicas, trabalho realizado no âmbito da Secretaria de Políticas para as Mulheres).

Os casos recebidos pela Ouvidoria estão arquivados como processos físicos (integralmente) e em forma eletrônica (parcialmente). Todos os mais de 5.000 processos constituem um rico acervo, importante fonte de pesquisas sobre as questões de gênero e políticas para as mulheres.


Assessoria de Comunicação Social

Secretaria de Políticas para as Mulheres - SPM
Presidência da República - PR
61 3411 4214 / 4228 / 4229 / 5807 / 5887             
www.spm.gov.br

2 de novembro de 2012

Próximo encontro - 06/11 (terça-feira às 12hs.) - Simpósio GEFEM-UnB

Informamos que a 4ª mesa-redonda do Simpósio GEFEM-UnB será na próxima terça-feira das 12 às 14hs.
Local: Auditório do Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília (final do ICC Norte - subsolo, fim do corredor, próximo da lanchonete natural), Campus Darcy Ribeiro.
4º encontro – Os feminismos exploram – 06 de novembro
- Profa. Dra. Ana Liési Thuler Feminismos e produção de conhecimento: disrupturas e insurgências latino-americanas.
- Profa. Dra. Claudia Brochado (UnB) – Feminismos na Literatura: escritoras da Idade Média na Querelle des Femmes – Isabel de Villena (Valencia, séc. XV).
- Profa. Dra. Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro (UFU) –  Sedução, crime e impunidade: desconstruções do/no feminino (Minas Gerais,1940-1980).



Mini-currículo das expositoras


Ana Liési Thurler

Doutora em Sociologia, Mestra em Filosofia. É autora de Em Nome da Mãe. O não reconhecimento paterno no Brasil, proponente do projeto Pai Legal nas Escolas desenvolvido pelo MPDFT desde 2002; proponente e coordenadora do projeto de pesquisa e intervenção social Paternidade e Cidadania nas Escolas, implementado simultaneamente em 40 pontos no estado do Piauí, com a participação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e do Sindicato dos Trabalhadores na Educação do Piauí (SINTE-PI). Consultora de conteúdo do filme Nada sobre meu pai, direção de Susanna Lira. Tem artigos e capítulos de livros publicados no Brasil e no exterior (França, Canadá, Espanha, Peru, México, Colômbia). Desenvolve trabalhos com ênfase em Sociologia das Relações Sociais de Gênero e Direitos Humanos, atuando principalmente com os seguintes temas: Parentalidades, em articulação com cidadania e democracia; Relações de gênero e suas intersecções com raça/etnia e classe; Violências contra as mulheres; Direitos Humanos das Mulheres. Migrações e gênero.  Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/8706030929195986

Claudia Costa Brochado

Formada em História (1988) e em Letras Tradução - Alemão (1986) pela Universidade de Brasília, fez doutorado em História Medieval pela Universidade de Barcelona (1995). Atualmente é professora do Departamento de História da Universidade de Brasília. Membro dos seguintes grupos de pesquisa: Grupo Interdisciplinar de Estudos Medievais - UFPB; Grupo de Estudos Feministas: História, Mídia e Representações Sociais - UNB (GEFEM); Programa de Estudos Medievais (PEM-UnB).
 Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/7502810886357127


Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro

Graduada em História pela Universidade de Brasília (1993), mestre (2002) e doutora (2006) pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília/DF. Atua como professora adjunta do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia/MG. Pesquisa na área de História/historiografia, Estudos Culturais e Estudos Feministas e sob perspectivas interdisciplinares, dedica-se particularmente aos seguintes campos/objetos: identidades e representações sociais, cultura brasileira, História do Brasil e da África. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/4939665565955670

23 de outubro de 2012

Lançamento do livro da prof.a Susane R. de Oliveira

A Paco Editora acaba de lançar o livro Por uma História do Possível: Representações das Mulheres Incas nas Crônicas e na Historiografia, de autoria da prof.a dra. Susane Rodrigues de Oliveira (Departamento de História - UnB).

Sinopse do livro : Quando os espanhóis chegaram aos domínios do Tawantinsuyo, por volta de 1532, se depararam com mulheres indígenas, cujos papéis e funções não se encaixavam nos padrões europeus, prescritos e naturalizados para o sexo feminino. Essas mulheres tinham participação ativa e importante na sociedade, exercendo poder e autoridade na organização política dos incas, sendo inclusive adoradas e reverenciadas como huacas, heroínas e governadoras. Este livro apresenta um estudo das imagens/representações destas mulheres veiculadas nas crônicas coloniais e na historiografia contemporânea a respeito das origens e expansão do Tawantinsuyo.

O livro já está disponível para venda no site da editora: clique aqui.

Em breve anunciaremos a data de lançamento do livro em uma livraria de Brasília.

19 de outubro de 2012

Dia 23/10 - próximo encontro do Simpósio GEFEM-UnB

Informamos que a 3º mesa-redonda do Simpósio GEFEM-UnB será na próxima terça-feira das 12 às 14hs.
Local: Auditório da Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília (final do ICC Norte - subsolo, próximo da lanchonete natural), Campus Darcy Ribeiro.


3º encontro – Os feminismos fazem história – 23 de outubro

- Profa. Dra. Cristina Teixeira Stevens (UnB) – Olhar feminista: metaficção historiográfica contemporânea.
- Profa. Dra. Diva do Couto Gontijo Muniz (UnB) – Mulheres, história e cidadania.
- Profa. Dra. Susane Rodrigues de Oliveira (UnB) – Feminismos e políticas educacionais no Brasil (2004-2007).


Mini-currículo das expositoras

Cristina Maria Teixeira Stevens

Possui graduação em Letras (Licenciatura Inglês Portuguê)  pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1974), mestrado em Letras (Inglês e Literatura Correspondente) pela Universidade Federal de Santa Catarina (1979) e doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo (1987). Pós doutorado: Centre for Interdisciplinary Gender Studies - Leeds University (2003). Atualmente é professor associado da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Letras - Literatura Inglesa e Norte Americana. Ensino, pesquisa e publicações nos seguintes temas: literatura comparada, literatura e gênero, interculturalidade, literatura norte-americana e literatura e história, com ênfase nos livros Quando o Tio Sam Pegar no Tamborim: uma perspectiva transcultural do Brasil (Editora Plano: 2000), Caminhos e Colheitas: ensino e pesquisa na área de inglês no Brasil (EDUnB: 2003), Maternidade e Feminismo: diálogos interdisciplinares (Editora Mulheres: 2007), Migração e Identidade: olhares sobre o tema (Centauro: 2007), A Construção dos Corpos: perspectivas feministas (Editora Mulheres: 2008), Mulher e Literatura - 25 Anos: Raízes e Rumos (2010, Editora Mulheres), além da tradução do romance da estadunidense Karen T. Yamashita 'Through the Arc of the Rainforest' (1990), publicado com o título Matacão, uma Lenda Tropical (Zipango: 2003). Coordena o grupo de pesquisa VOZES FEMININAS (v.diretório de grupos de pesquisa do CNPq e site http://sites.google.com/site/vozesfemininasunb). Coordenadora do GT/ANPOLL "A Mulher na Literatura" para o bienio 2010/12.


Diva do Couto Gontijo Muniz

Possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1970), especialização em Filosofia e História da Arte no Brasil pela PUC/RJ (1981), mestrado em História pela Universidade de Brasília (1984) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1998). Professora Associada da Universidade de Brasília, onde atua na graduação e pós-graduação, nas áreas: História e Historiografia do Brasil Imperial, Historiografia, História e Historiografia das Mulheres, Estudos de Gênero e Ensino de História. Integra o corpo docente da pós-graduação em História nas áreas de concentração Estudos Feministas e de Gênero e História Social nas linhas de pesquisa "Sociedade, Instituições e Poder" e "Epistemologia Feminista e História das Mulheres". Orienta monografias de final de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado, centradas nos seguintes eixos temáticos: historiografia, cultura política, experiências, representações sociais, poder e identidades. Tem publicado livros, capítulos de livros e artigos em revistas especializadas em torno de tais eixos, dentre eles "Um toque de gênero: história e educação em Minas Gerais (1834-1892)", pela EdUnB, em 2003 e "Nação, civilização e história: leituras sertanejas", pela PUC/Goiás, 2011.

Susane Rodrigues de Oliveira

Possui graduação em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1997), mestrado (2001) e doutorado (2006) em História pela Universidade de Brasília. É professora adjunto no Departamento de História da Universidade de Brasília na área de Teoria e Metodologia do Ensino de História. Lidera o grupo de pesquisa LABEH - Laboratório de Ensino de História (UnB). É membro do Conselho Editorial da revista História Hoje e do Conselho Consultivo das revistas Caderno Espaço Feminino (UFU), Em tempo de Histórias (UnB) e Ameríndia (UFC). Áreas de atuação e pesquisa: História dos Incas, História das Mulheres, Estudos Feministas e de Gênero, Ensino de História, História da Educação, Historiografia, Representações Sociais e História da América Indígena Antiga e Colonial. Recentemente publicou o livro "Por uma História do Possível: Representações das Mulheres Incas nas Crônicas e na Historiografia", pela Paco Editorial de Jundiaí/SP (2012). É coordenadora de eventos do Grupo de Estudos Feministas da UnB (GEFEM-UnB).

11 de outubro de 2012

Indicação bibliográfica da profa. dra. tania navarro-swain


Parte da produção bibliográfica da Profa. Dra. tania navarro-swain está disponível em seu site: www.tanianavarroswain.com.br

A CONSTRUÇÃO DAS MULHERES: A RENOVAÇÃO DO PATRIARCADO
tania navarro swain


Os feminismos estão trabalhando para que as mulheres se afirmem enquanto sujeitos políticos, sujeitos de ação, de consciência e reflexão. Seres humanos que não se definam por seu corpo, por um sexo, por uma identidade fictícia que lhes assegura um lugar inferior no social. Aos feminismos o patriarcado responde de várias maneiras: pelos insultos que todas conhecem e não vou retomar aqui, pelo silencio e por uma adaptação insidiosa às conquistas duramente conseguidas pelas mulheres.
Na academia, a tática é o silencio. Apesar de sua incontestável pujança cognitiva e analítica, a produção feminista do conhecimento tem sido mantida em corredores secundários, pois acende o alerta vermelho do desafio ao bio-poder, ao poder patriarcal de criar um conhecimento conjugado no masculino e assim construir a “diferença” entre os seres humanos. A repetição incansável da “diferença dos sexos” recria a ficção do superior/inferior ancorada na ode ao sexo masculino. É portanto, a ênfase e a valorização do sexo como eixo das relações humanas e do sexo masculino como referente máximo que justificam o biopoder.
Frases como “O feminismo acabou”, “as mulheres já conseguiram tudo, o que mais querem?” são recorrentes no cotidiano e buscam apagar a reconstrução constante da “diferença” e do binarismo hierárquico.
Como todas sabem os feminismos almejam a mutação de um social cimentado na dominação e na apropriação dos corpos e do trabalho das mulheres. Entretanto, para além da couraça patriarcal, há fatores, internos aos feminismos, que bloqueiam o desenvolvimento de um saber de ponta, dirigido à transformação dos quadros e métodos de pensamento, visando a diversidade , muito além da “diferença”  de sexo. 
 Se os feminismos primam pela criatividade e renovação, certas categorias podem representar bloqueios a seu desabrochar se utilizadas sem uma problematização e uma perspectiva crítica.
Dentre elas, acredito que teoricamente, o emprego da categoria “gênero” muitas vezes reinstala o discurso da natureza, pois no famoso sistema sexo / gênero, um fundamento biológico, logo natural, estaria incontornavelmente presente.
Ora, a importância dada ao sexo biológico enquanto fundamento do poder, de identidade, do político, é um traço cultural e como bem sublinha Judith Butler, não existe gênero fora de práticas materiais de gênero. E ela vai ainda mais longe, ao afirmar que desta forma o sexo é construído pelo gênero, cuja performance desmascara a irredutibilidade do biológico.  Assim, a utilização acrítica e a- histórica da categoria “gênero”coloca em primeira linha o “natural”, o “sempre foi assim”  em todas as sociedades e espaços de maneira universal, sem levar em conta as especificidades biossociais no espaço /tempo.
Ora, nenhuma biosocialidade é preexistente à sua objetivação, à sua materialização. Ao contrário, é em suas práticas que toma forma a carne e que se criam os sentidos. A denominação “sexo social” já levava em conta esta circunstância pelas feministas dos anos 1970/80 e em meu entender esta é ainda a melhor maneira de significar as relações sexo/ sexualidade no agenciamento societário.
A ingenuidade ou a perversidade que separam natureza e cultura  são  extensões de um bio- poder em ação. Pois o poder atua na carne para melhor extraí-la da trama das relações sociais e lhe atribuir uma significação universal.
O esquecimento da plasticidade de uma coreografia ontológica, como a nomeia Donna Haraway, é de fato uma das realizações do patriarcado que determina uma forma e uma função aos seres segundo apenas um fator: seu sexo biológico.
Os feminismos não cessam de mostrar que os opostos binários  são apenas efeitos de sentido. Desta forma, o sexo não está para a natureza assim como o gênero está para a cultura. Haraway questiona esta divisão e  propõe  em uma só palavra “naturezacultura” como uma única e mesma força, pois  nada é fixado de antemão e uma vez por todas. Assim,  para efeito de análise crítica do social a categoria gênero deve incluir os termos de sua construção.
A dança dos seres, diz Haraway, forma plasticidades diferenciais da carne em cada formação social. Nesta perspectiva, as sócio-conexões são parciais e nunca definidas anteriormente, como querem alguns estudos do “gênero”. As relações sociais são eminentemente históricas e constitutivas na diversidade das experiências sociais. E a história patriarcal apaga, sem pudor, esta amplitude, para oferecer a monotonia de um binário segundo o mesmo molde eterno, o que é retomado  muitas vezes pelo binarismo que pode supor a categoria “gênero”.
As fundações e as origens são contingentes, sublinha Butler. Adão e Eva são apenas representações de um poder avassalador que aspira a se justificar. Como sublinha Haraway “[...] nenhum dos parceiros preexiste a seu relacionamento, este último jamais fixado de uma vez por todas” (19)
As relações humanas são ainda forjadas em um imaginário patriarcal que lhes criam origens universais para melhor justificar sua manutenção. Entretanto, diz Haraway, com humor: “não há fundação, há apenas elefantes empilhados uns sobre os outros até embaixo.” (10)
Da mesma maneira, a ficção patriarcal faz do binário hierárquico o eixo das relações humanas e funda sobre o sexo e a sexualidade seu bio-poder, que se torna então, “indiscutível”. É assim que a categoria “gênero” torna-se um obstáculo ao conhecimento feminista, pois submete as relações bio-sociais ao mesmo esquema do natural sem questionar a importância dada ao sexo em sociedades múltiplas.
Esta é talvez a razão de sua aceitação na academia, já que perdeu sua força de indisciplina, de indignação e se tornou uma categoria domesticada, que não representa nenhuma ameaça para o patriarcado e sua história dita “universal”, da qual as mulheres são apagadas.
O gênero assim utilizado, afasta o perigo dos feminismos, de sua insubmissão, de seu desejo de transformação. O gênero, que não problematiza, apenas descreve, submete-se às garras do patriarcado que renascem sem cessar e se agarram sobre novas superfícies para reproduzir os esquemas de poder.
O patriarcado, tal como o capitalismo, adapta-se às transformações sociais e em sua nova face mistura-se às conquistas realizadas pelas mulheres.
É assim que outro obstáculo maior à difusão e à circulação do conhecimento feminista, à afirmação das mulheres enquanto sujeitos políticos são as mulheres elas mesmas, adotando as significações sociais do que é ser mulher. Pois nesta perspectiva, só se é mulher dentro de certo tipo de relações sociais encabeçadas pela heterossexualidade e por certo tipo de comportamento.
As novas tecnologias de informação e de reprodução humana são colonizadas por este patriarcado cujo fôlego não se esgota. Recitam as mesmas litanias sobre a “verdadeira mulher”, esposa, mãe, bela, sedutora, amante, disponível. As mídias incitam as mulheres e as meninas a adotar as imagens de sedução incompatíveis com um feminino autônomo, sujeito político independente.
Desta maneira, se as teorias feministas decolam em sua produção do conhecimento, as representações sociais que se fazem carne exprimem ainda um feminino construído à sombra da diferença. Vemos assim a volta  aos primeiros objetivos dos feminismos contemporâneos, isto é,  agir para o despertar da consciência das mulheres enquanto sujeitos políticos. Os caminhos parecem traçados em círculo: o fim da viagem traz as mulheres de volta à sua condição “natural”.
Para analisar este bloqueio, que impede a difusão do saber feminista e ao mesmo tempo da tomada de consciência da ação do biopoder, considero que a noção foucaultiana de “dispositivo” é um instrumento teórico ideal.
O que é o dispositivo? É o conjunto de estratégias sociais e de biotecnologias de poder que produzem corpos sexuados significando-os enquanto sexo social. Os mecanismos do dispositivo constituem e são  engendrados por conexões de poder. É assim que as instituições, as leis, as mídia, a linguagem, a divisão do trabalho, as condições de produção e de imaginação sociais são elementos do dispositivo. Criam e são criados em certa configuração de saber e dão origem a poderes diversificados.  (MP 246)
Vemos então que cada formação social em sua escala temporal e seu espaço geográfico interage de maneira singular com as transformações societárias. As cartografias feministas não podem ignorar tais flexibilidades.
Estou exausta de ouvir antropólogas, sociólogas, historiadoras, filósofas dizerem “sempre foi assim” referindo-se à hierarquia binária dos sexos. A análise teórica tem que ser levada às últimas conseqüências e este tipo de afirmação não se funda senão em sua repetição. Funda-se na indolência analítica, que prefere adotar a repetição em vez de buscar a multiplicidade no agenciamento social. Quem é que pode saber tudo sobre todas as sociedades, em todas as épocas?Que tipo de arrogância enuncia tais verdades, senão a presunção do ignorante?
Gostaria de pensar a noção do dispositivo em três momentos, que se imbricam e se entrelaçam para produzir os sexos e as relações de poder que deles são constitutivas. Este biopoder retoma os mesmos temas sobre o feminino com outras ressonâncias, mas a música permanece a mesma.
O primeiro momento é o da sexualidade que pode ser visto hoje como a incitação a uma hiper sexualidade, cuja norma é a heterossexualidade identitária. O segundo momento é o do dispositivo amoroso, ligado à construção social específica do feminino, cuja iteração, repetição de suas particularidades resulta em sua reprodução. O momento que perfaz a tríade é o dispositivo da violência, simbólica e material que pretende domesticar e sujeitar o sexo social feminino pela utilização do medo e da força.
Não são novos eixos na construção social do feminino, entretanto aparecem sob novas formas e estreitamente ligadas.
Os feminismos investiram na redescoberta dos corpos, na tomada de consciência que fez da sexualidade não mais um lócus de servidão, mas sim de florescimento. “O direito ao prazer” fazia parte dos direitos a serem obtidos e tinha um gosto de liberdade.
“O pessoal é político” afirmavam as feministas e isto implicava igualmente o direito a uma sexualidade livre.
Todavia, o dispositivo da sexualidade, regido por um patriarcado ativo, retoma esta conquista em seu proveito: o controle rígido da virgindade de antigamente dá lugar à exacerbação sexual que beneficia o conjunto dos homens cujo desejo nunca parece se satisfizer.
As mulheres não encontram aí qualquer proveito, pois a sexualidade torna-se a base de uma “mulher liberada”. A liberdade almejada era, acredito, aquela das escolhas, dos momentos, do desabrochar do corpos e suas capacidades; não a necessidade insuflada pelos discursos sociais. A sexualidade desmedida obedece à lei da repetição, pois seu exercício torna-se obsessão, centro da vida, nódulo identitário.
Não mais a criatividade dos prazeres múltiplos sobre corpos que se tocam: o prazer se reduz a ansiosas buscas de pontos pré-fixados, tal como o improvável ponto G. A sexualidade feminina que prometia a diversidade de sensações não faz senão imitar a sexualidade masculina, apressada em obter encontros variados e resultados rápidos.
A televisão e o cinema estão entre os mecanismos mais eficazes do dispositivo: as imagens que aí se produzem mostram uma certa sexualidade paradigmática, um modelo de comportamento, uma representação social e sexual que se materializa ao se reproduzir. É a sexualidade sob a égide da necessidade incontornável que faz agora parte integral da imagem da “mulher liberada”.
É não somente a incitação a um certo tipo de sexualidade e de comportamento que aí se encontra, mas sobretudo sua própria produção que se configura.
É assim que cada vez mais jovens, as mulheres vêem seu “direito ao prazer” se metamorfosear no oximoro “liberdade obrigatória”. No Brasil 1/3 das meninas de menos de 15 anos já havia tido relações sexuais em 2006, três vezes mais que em 1996. Quantas meninas não vivenciam uma gravidez indesejada?
O direito à contracepção, duramente conquistado pelos feminismos teria caído em desuso? A utilização de preservativos depende da boa vontade dos homens, de um assujeitamento feminino ainda vivo? Quem tira proveito das “mulheres liberadas”? Quem paga afinal, a adição?
O pensamento straight (correto) identificado por Wittig e a heterossexualidade compulsória explicitada por  Adrienne Rich, são análises de toda atualidade: a representação da “verdadeira sexualidade” no imaginário social é binária e oposta, sua função primeira é de procriar e de fixar identidades sexuadas. A heterossexualidade é deste modo performativa, pois transforma os corpos sexuados em sexo social.
É, portanto a partir da heteronormatividade que diferentes identidades sexuais reivindicam sua existência. O sexo biológico não é senão performance, pois o que importa é o sexo social e as práticas sexuais que o engendram. Todas as biotecnologias do dispositivo são colocadas em ação para que se justifique a sexualidade enquanto razão de viver e núcleo identitário.
É difícil separar o alcance dos três aspectos do dispositivo de tal forma são entrelaçados. O sexo social masculino se objetiva como sendo o referente geral do humano e o feminino, o diferente. Entretanto, sua construção no seio do dispositivo da sexualidade sofre a interferência de um outro dispositivo: o dispositivo amoroso.
O feminino atualmente parece erigido em dois eixos? O do sexo-trabalho-autonomia e o do amor-maternidade-dom de si. As estratégias sociais os misturam e imbricam para perfazer um feminino contraditório: o trabalho e a autonomia face aos apelos da maternidade e da domesticidade; a sexualidade múltipla face ao desejo de uma relação estável, a necessidade de seduzir oposta à afirmação enquanto sujeito livre do olhar de outrem. Estes dois eixos giram em torno da heterossexualidade para a grande maioria.
É a reprodução de antigas fórmulas que caracterizam as mulheres: doces, devotadas, amáveis e sobretudo, amantes. O amor as atualiza na expressão identitária de “mulheres”: é sua razão de ser e de viver. Elas estão prontas ao sacrifício e ao esquecimento de si por “amor”. O dispositivo amoroso é o canto do amor pelas biotecnologias sociais, da vida que floresce na realização de outrem. São as tarefas e os papéis específicos inculcados no feminino que devem coabitar com a “nova mulher liberada”, cuja sexualidade deve ser desenfreada.
Este dispositivo amoroso atrela à representação do feminino toda uma série de deveres, de culpabilidades, de normas à serem seguidas por uma “verdadeira mulher” que vão da aparência ao dom de si sem reserva: as tarefas domésticas – compras, roupa, cozinha, limpeza- o cuidado com as crianças e os velhos, sem esquecer a sedução do marido/ companheiro e as exigências do trabalho remunerado
Através da inculcação dos mecanismos do dispositivo amoroso, as mulheres tornam-se servas, igualmente obrigadas a uma sexualidade que as identifique como « modernas ». A maternidade não é mais restrita ao casamento, mas... tornou-se uma necessidade biológica. As clínicas de inseminação artificial se multiplicam, as lésbicas passam a ter filhos, isto é a biotecnologia, mas também a imagem do feminino, aquele que se traduz e se completa na procriação.
O ventre das mulheres continua a ser controlado pelo  patriarcado, pedra angular de seu poder, quer seja por meio de representação social do feminino, quer seja pela coerção da lei ou das normas sociais. A liberdade sexual sim, mas uma gravidez indesejada deve ser suportada até o fim. Os religiosos, todos deuses confundidos, rugem para melhor ameaçar de prisão e de danação eterna toda mulher que recuse uma gravidez.
Nos contornos dos saberes atuais, as práticas e os discursos sociais agem, de forma insidiosa, para melhor controlar as mulheres, reféns delas mesma, proclamando sua liberdade. Ser mulher é, desta forma, ainda e sempre uma construção do poder cuja novidade é o reaparecimento dos antigos modelos em novas roupagens.
O terceiro aspecto, o dispositivo da violência, material e simbólica, faz parte constitutiva dos dois primeiros. Se a violência doméstica é mais visível hoje em dia, continua a acontecer no silencio e no medo. Quem deu aos homens a possibilidade de aterrorizar, bater, enclausurar mulheres e crianças no domínio privado, senão a condescendência da sociedade patriarcal? As mulheres que denunciam as agressões tantas vezes retiram as queixas, dobrados pelo jugo do dispositivo amoroso: perdoar, esquecer, dar outras chances.
O dispositivo da violência encabeça os dois outros, e se misturam de modo inextrincável. Assim, a construção do sexo social é ela mesma uma violência e a instituição da diferença das mulheres o é igualmente. A noção de “natureza”, para melhor excluir, coagir e discriminar as mulheres faz parte da panóplia do dispositivo da violência. O poder assim instalado, autoriza e justifica todas as agressões, abusos e brutalidades quer seja no espaço público ou privado.
A ameaça da perda de poder e da posse, não é o motor de uma violência que oscila entre o estupro, golpes e assassinatos de mulheres, sem falar do ácido ou do fogo que desfiguram e destroem? Uma nova palavra “feminicídio” foi criada para exprimir esta realidade: elas são mortas pois são mulheres e querem ser livres. São violentadas porque os homens podem fazê-lo, autorizados pela “fraternidade” que o conjunto dos homens partilham. Finalmente, o estupro é um tributo pago pelas mulheres à virilidade, na paz ou na guerra.
Estes três elementos do dispositivo reformulam os pontos de apoiodo patriarcado, mas os mantém firmemente no lugar. Fala-se de liberdade e do desabrochar das mulheres, mas os discursos sobre a “nova” sexualidade e a “nova mulher” reproduzem, de fato, a “natureza” e a “diferença”.
Onde foi parar a produção de conhecimentos feministas, se suas análises radicais da construção da carne em corpos sexuados, das significações e das representações sociais que mantém as mulheres na “diferença” e na inferioridade?
A violência simbólica do silencio faz parte constitutiva do biopoder patriarcal, das biotecnociencias que insistem na retomada dos papeis sexuais “naturais”. Sob a categoria “gênero” a academia finge a incorporação dos estudos feministas para melhor desfigurá-los. Sob a denominação “novos feminismos” pretende-se destroçar a denúncia dos pilares do sistema patriarcal: “a natureza” e a “diferença”.
Na lógica das relações societais que estabelecem os valores, as normas, os métodos analíticos, as categorias de apreensão e de construção do real, os feminismos constituem um saber de ponta, desconstruindo as narrativas mestras, fundadoras do poder patriarcal. A esperança é que tudo que se constrói, pode ser desconstruído.

BIBLIOGRAFIA
BUTLER, Judith. Gender Trouble, feminism and the subversion of identity, New York: Routledge. 1990.
_____. Contingent foundations: Feminism and the question of ‘postmodernism’ in Steven Seidman (ed.) The Postmodern Turn New Perspectives on Social Theory: Cambridge University Press, 1994. pp. 153-170  Online Publication Date: September 2010.
FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité. vol. 1, Paris: Gallimard, 1976.
_____. Dits et écrits. vol. III, Paris: Gallimard, 1979.
_____. Microfísica do Poder, Rio de Janeiro: Graal, 1988.
HARAWAY, Donna. Manifeste des espèces de compagnie- chiens, humains et autres partenaires Villefranche-de-Rouergue: Terra cognita, Editions de l´éclat, 2010
RICH, Adrienne. La contrainte à l´hétérosexualité, Questions Féministes, n,1, Mars Paris: Editions Tierce, 1981.
WITTIG, Monique. La pensée straight. Questions Féministes, n.7, février, Paris : Editions Tierce, 1980

10 de outubro de 2012

Indicação bibliográfica - Prof.a Dra. Tania Montoro

MONTORO, Tania. " Velhice e Envelhecimentos: Dispersas Memórias na Cinematografia mundial" In. Maria Luisa Mendonça(org.) Midia e Diversidade. Ed. Casa das Musas, dez 2009.


 
Velhices e envelhecimentos: 
Dispersas memórias na cinematografia mundial


                                                             Tânia Siqueira Montoro [1]



         1.Velhice e memória no cinema:

         São de diferentes gêneros e nacionalidades filmes que geram imagens dos velhos, de seus processos de envelhecimento e de suas mortes. Estes filmes identificam as dores e infortúnios dos idosos, mas também seus amores, seus desejos, suas escolhas, seus sonhos revelando-se como material empírico de valor para observação e critica nos estudos da comunicação audiovisual especialmente, em sua interface com estudos de gênero.  
      Consideramos envelhecimento todos os processos de alterações que envolvem os indivíduos no decorrer da vida. Longevidade é a capacidade de vivenciar, de melhor forma e por mais tempo, os processos de envelhecimento. Debruça-se, este estudo, sobre os processos de produção de sentidos e significações na complexa relação entre cinema e formas de representação social  da diversidade, isolando as  temáticas  da  representação da velhice  e dos processos de envelhecimento para substanciar a análise dos filmes selecionados.
        Para Jodelet (2001) [2] os estudos da representação social remetem a uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. As representações orientam e conduzem as condutas e as comunicações sociais e interpessoais. Da mesma forma, intervem em processos de difusão e assimilação de conhecimentos, o desenvolvimento individual e o coletivo, a definição de identidades pessoais e sociais, a expressão de grupos e as transformações sociais.
     Na linguagem cinematográfica a representação está organizada em um núcleo central. Esse é o elemento fundante da representação, uma vez que determina a significação e organização que ela possui. A teoria das representações sociais interessa, por várias razões, a área de comunicação audiovisual e conforme sublinha Almeida(2005)[3] “os diferentes meios permitem que as representações transitem em distintos espaços , assumindo significados e funções diferenciadas , o que contribui para sua própria transformação” Destaca, a pesquisadora,  quatro níveis de análise para os estudos da representação na analise cultural contemporânea. .
 O primeiro focaliza os processos intra-individuais e analisa o modo como às pessoas organizam suas experiências com o meio ambiente. O segundo centra-se em processos inter – individuais e situacionais, ao buscar em sistemas de interação os princípios explicativos típicos de dinâmicas sociais. O terceiro leva em conta as diferentes posições que as pessoas ocupam em relações sociais e analisa como essas posições modulam os processos do primeiro e segundo níveis. O quarto enfoca os sistemas de crenças, representações, avaliações e normas sociais. Desta forma, a autora, compreende os processos de representação como princípios gerados por tomadas de posição, ligados às inserções sociais especificas que organizam os processos simbólicos que interferem nas relações sociais.
     
    A imagem do velho e da velhice se edifica nas relações sociais e culturais de cada sociedade e grupo e, sofre mudanças, ao longo do tempo. Essa imagem é resultante, muitas vezes, da rejeição de algo não desejado, que deixa de ser apenas a morte e passa a ser o próprio estado de velhice e envelhecimento.  A titulo de exemplo focamos a adaptação filmica  do clássico de Oscar Wilde O retrato de Dorian Gray (1945) em que  envelhecer é difícil, exige cuidados, conforma processos de insegurança e dependência. Outros filmes maculam esta dificuldade de produzir sentidos a experiência de vida,  que é envelhecer e morrer.  Pois, se a natureza nos conduz para um lado, relembrando seus ciclos, a cultura visual nos oferece um outro, impondo-nos um modelo único de beleza, geralmente associado com o vigor da juventude.
 Este modelo vem traduzido num eterno aperfeiçoar-se,  para parecer cada dia mais novo, e assim  aumentar a capacidade de  sedução/identificação/ aceitação do corpo, tomado como elemento de valorização de um  modelo veiculado e revelado no domínio de novas tecnologias de gênero ( no sentido dado por Laurentis)[4] que vão de  cirurgias plásticas a  processos de mudança de cor( bronzeamentos, branqueamentos) e  mudança de sexo, processos transformadores  que passam a ser acessíveis para  uma massa de consumidores/ público/ telespectadores contribuindo para que cada vez, no mundo todo, pessoas mais jovens( fenômeno observado no mundo ocidental ) busquem intervenções cirúrgicas de natureza exclusivamente estética.
    Trata-se, portanto do mundo das aparências, revelação identitária conduzida por uma  imagem reveladora de um corpo sempre em mutação como condição única de verdade e realidade e ainda, de negação do tempo vivido.

      Ao longo da cinematografia a representação da velhice se consagrou  por memoráveis personagens que figuram como protagonistas de cenas hilárias e consagradas na memória do audiovisual. Para acompanhar a reflexão valho-me de alguns exemplos da cinematografia para pinçar fragmentos que conformam figurações dos processos de envelhecimento tentando apontar as formas de representação que circulam na narrativa filmica.
  Num esforço de memória apontamos alguns filmes que marcaram seus enredos, tramas e personagens com formas de representação da maturidade como em  Morangos Silvestres ( Bergman,:1957) em que .um professor de medicina , de 78 anos, a caminho da Universidade de Lund, onde receberá um premio por sua contribuição cientifica, revela uma imagem inesquecível, que é aquela que mostra um velho, sábio,que purga uma vida inteira sem amor.
 Em Morte em Veneza (Viscondi:1971) os velhos envergam maquiagens e máscaras de juventude que se desfazem ao mesmo tempo da decadência veneziana pelo surto da cólera, ambiente que contribui para que os jovens desprezassem o futuro( a velhice) . Encontramos como lapidar o discurso sobre a representação da velhice: “ ... não há em todo mundo impureza tão impura quanto a velhice”entoada por um dos principais protagonistas dessa película.
      Em Ensina-me a Viver ( Hal Ashby,1972), o cinema americano inaugura uma nova forma de representação da velhice, naquele momento, em que  a geração Easy Rider envelhecia, o filme tornou-se um ícone da cinematografia dedicada a temática inaugurando um discurso provocador e irônico,  ao colocar um jovem de 20 anos( Harold), pedindo em casamento uma senhora de 79 (Maude). A senhora estabelece uma relação profunda, complexa e duradoura com aquele jovem obcecado pela morte, e que passou boa parte de sua vida indo a funerais ou simulando suicídios. Este jovem encontra-se casualmente com a velhice que esbanja vivacidade e por meio dos sentidos que dá ao cotidiano, expõe a beleza da vida. Este diálogo entre vida e morte , tragédia e comicidade,  desperta no público uma sensibilidade para vivenciar , uma tocante história de relações interpessoais , que nos faz refletir sobre o sentido da vida e não da morte ... Inaugura, este filme outro olhar sobre as relações de gênero e formas de sedução feminina.
    No magnífico Cinema Paradiso ( Giuseppe Tornatore, 1989)  uma obra prima de ode ao cinema e à vida, observamos que o centro representacional da trama narrativa recai sobre a amizade de um garoto, e um amadurecido projetista de cinema( Alfredo) no interior da Itália. Utilizando de uma linguagem simbólica e poética, o filme nos conduz  a mergulhar na memória da sétima arte, esmiuçando as transações constantes entre presente e passado e passado e futuro, que fundamentam toda a complexa relação entre espaço e tempo na linguagem cinematográfica.
       Ainda, o diretor italiano Tornatore no filme Estamos todos bem (1988) orienta o olhar do público, do espectador sobre a representação da velhice, sublinhando a  dificuldade que a sociedade ocidental tem em lidar com a morte,especialmente quando se trata de alguém que não atingiu a velhice. O personagem do solitário  Matteo ( vivido por Marcelo Mastroianni) que busca a companhia de seus filhos é interpelado pela dureza das fatalidades que acometem a vida da família. Em determinado momento aquele pai, viúvo e solitário imprime sentido ao cotidiano e aprende com as pessoas, que às vezes  “...é melhor fingir que não houve nada , não entender e não procurar esclarecimentos”. Em seu livro O Cotidiano e a História a filósofa Agnes Heller observa que:
             ... a vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se  em funcionamento todos os seus sentidos , todas as suas capacidades intelectuais , suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias e ideologias. O fato de que todas as capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se , nem de longe, em toda sua intensidade. O amadurecimento do homem significa socialmente que o individuo adquiriu todas as habilidades imprescindíveis para vida cotidiana da sociedade. É adulto quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade. ..(Heller1989:18).  

            E é no cotidiano de uma pequena cidade européia, hipócrita e conservadora que o filme A excêntrica família de Antônia,( Marleen Gorris -1995) que o espectador é levado ao passado para acompanhar a vida da matriarca Antonia, narrada por sua bisneta. Na família de Antonia, o amor não tem barreiras, é livre, surge para todos e aparece sob várias formas. Neste cotidiano a matriarca executa a justiça pelas próprias mãos, seja para defender seu circulo afetivo ou qualquer um que precise dela e não tenha a quem recorrer. Antonia é apresentada como alguém à frente do seu tempo, construtora de um lar cheio de vias e sobreviventes em meio aos destroços de uma existência sem objetivos. O argumento do filme trata da existência ( o viver cotidiano) como um exercício de estoicismo: deve-se preservar nas escolhas, o que somos a despeito das adversidades. Não se pode conseguir tudo, mas, se preservarmos nossa essência, consegue-se o necessário. E quando a morte chega parte-se com coração tranqüilo, ficam apenas saudades e memórias revisitadas como recordações.

     O cotidiano também representa o núcleo central da trama narrativa filmica em Conduzindo Miss Daisy ( Bruce Beresford,1989) que relata a vida de uma rica judia de 72 anos, que depois de um acidente de carro, é obrigada pelo filho a conviver com um motorista negro contratado por ele. Inaugura-se aí uma grande amizade que durarã  vinte anos de cumplicidade e companheirismo. Este filme construído sobre relações de classe, gênero e raça conferiu a atriz, Jéssica Tandy , a época com 80 anos, o Oscar por sua atuação, entrando na história como a interprete mais velha a ganhar uma estatueta na categoria
      O mais velho cineasta em atividade, o diretor Manoel de Oliveira tinha mais de 90 anos quando realizou Vou para casa (Portugal:2001). O filme narra a história de um ator de teatro que tem uma carreira de sucesso. Ele vive a tragédia com a morte de sua mulher, filha e genro, em um acidente. O tempo passa e a vida volta ao dia a dia, a normalidade do cotidiano. Gilbert compartilha sua cotidianidade com seu neto e se recusa a fazer qualquer coisa só por dinheiro. Lança-se a encenar Ulisses de Joyce. No dia da estréia da peça, o ator mostra as falhas na memória esquecendo o texto que havia estudado por tantos meses. Então, calmamente, pára e claramente diz: “Vou para casa” resignando-se frente aos fatos, a realidade do envelhecimento, as limitações da vida e da arte frente a circunstancias da realidade.
     Amizades de velhos e crianças acrescem a cinematografia sobre a temática. Em Confissões de Schmidt ( Alexander Payne, 2002)que magnificamente retrata a complexa e profunda relação de Scmidt, que aos 66 anos, com dificuldades para se adaptar a nova vida de aposentado, até que algo lhe aproxima da vida, quando resolve adotar o menino Ngubu, que vive na Tanzânia. O discurso fílmico é mediado por um conjunto de cartas trocadas entre os personagens, que comparecem a narrativa imagética, como pessoas comuns que falam do envelhecimento, da solidão e da morte com simplicidade convocando a imortalidade dos bons momentos da vida!
      Na cinematografia oriental a relação entre mentalidade e realidade inscreve-se com altivez na representação da velhice e dos processos de envelhecimento. A tradição é conclamada para explicitar os valores que fundamentam a morte na cultura oriental.
 No inesquecível A Balada de Narayama (Shohei Imamura, 1983), filme clássico da etnografia mundial, em que em uma pequena aldeia no norte do Japão, uma senhora de 70 anos, que apresenta uma vitalidade invejável, é levada a montanha de Narayama, que era habitada por um Deus que orientava o  tradicional ritual da passagem da vida para morte, sendo esta forma de morrer considerada por aquela comunidade no norte do Japão, mais digna do que a provocada por uma doença. O filme retrata também o sofrimento de Orin, em aceitar a tradição desta forma de morte, para sua mãe, em um conflito entre tempo cultural e tempo biológico. 
     No enigmático Rapsódia de agosto ( Kurosawa:1991)  o diretor singulariza a mentalidade oriental de cultuar a sabedoria dos velhos. A avó protagonista central - nas cenas finais - corre sob a chuva com dificuldade de segurar as reviradas de um guarda chuva  atingido pela passagem de um tufão. Atrás dela correm os filhos e netos. Para Assunção ( 2007) [5] “ o diretor, nesta cena, coloca a necessidade de manter viva a memória do passado,ao mesmo tempo, em que não se perca a urgência de seguir adiante não importa contra o quê?”
   Em Mandadayo ,do mesmo diretor, (1993) um professor que se aposenta sofre imensamente com a perda de um gato de estimação. Depois de  algum tempo resolve substituí-lo por um “gato qualquer”.  A linha dramática do filme encaminha-se para uma lição de vida mostrando que tudo é substituível e que, os pequenos afetos são os alimentos da existência em qualquer plano. O filme é de uma sutileza exemplar e um libelo de consagração da sabedoria de aprender a ser e viver só.
A representação da velhice na cinematografia oriental salpica o filme A touch of Spice do grego Tassos Boulmetis ou o Tempero da Vida (1992) em que a relação entre um avô( filosofo e mentor) introduz o neto, que cresceu em Istambul , nos segredos da gastronomia ensinando que tanto a comida como a vida requerem um pouquinho de sal para adicionar-lhes sabor e emoção. Por meio da culinária árabe o avô rememora a vida cotidiana da família, os mitos, ilusões, o viver no exílio mesclando ingredientes do cinema poesia de Pasolini, conforme argumenta Brayner:.

       Para Pasolini, a realidade da maneira que se apresenta ao olho humano era um modo de comunicação, da mesma forma que o cinema. No decorrer de suas investigações intelectual ele propôs como estas duas instâncias poderiam interagir, resultando em uma forma inédita de olhar e perceber a realidade. Sua contribuição decisiva seria orientar este discurso no sentido de originar uma práxis cultural. Seu conceito distinto de realidade se configura na prática social, especialmente no que se refere às realidades que não estão inseridas aos padrões de consumo emergentes daquela época. Desta maneira temos que a realidade para Pasolini está intrinsecamente associada ao processo de formação e compreensão da imagem. O real pasoliniano é o seu signo. O cinema do autor – cineasta escreve a realidade, é escritura  de poesia( Brayner2008:90)[6].     

    No Brasil a diretora Carla Camurati, em 2001, realiza o filme Copacabana em metáfora ao populoso bairro, de muitos aposentados, da zona sul do Rio de Janeiro. O filme gira em torno da morte do personagem Alberto perto de completar 90 anos.
Com uma imagem bem humorada da morte na velhice, o filme, retrata também o inconformismo destilado pelo comentário dos amigos, recheando o imaginário do espectador do “mito do eterno retorno”, acionado quando Alberto levanta-se do caixão, assustando e alegrando, ao mesmo tempo, as pessoas do velório. A narrativa filmica encaminha-se para um reencontro de imaginários e memórias  de um inesgotável sentimento de brincar com a morte ao respeitar a vida.
 Ainda do promissor  cinema brasileiro contemporâneo os filmes Central do Brasil , A casa de Alice e Do outro lado da Rua  observamos uma mudança substantiva quanto a representação da velhice e dos processos de envelhecimento na construção das personagens centrais -  uma solitária  professora que escreve cartas na central do Brasil no Rio de Janeiro ; uma avó e dona de casa  que é o esteio tanto financeiro como emocional de toda uma família e, uma solitária aposentada que passa a viver a vida olhando e confiscando a vida de um homem(recém viúvo) do outro lado da sua rua.
     O cinema brasileiro atual vem trazendo outros olhares para os processos de maturidade e envelhecimentos para a tela do cinema tanto no premiado Chega de Saudades de Lais Bodansky( 2007)  como o delicado  Depois daquele baile de Roberto Bomtempo, 2006. Ambos apresentam inovadoras significações imprimindo um olhar singular e desafiador para as relações amorosas, que se estabelecem nos processos de corpo, amadurecimento e sedução. O primeiro retrata as casas de baile de São Paulo, lócus desconhecido da modernidade, mas que até hoje se estabelece como pólo de  vivências e convivências  para seus assíduos freqüentadores O segundo com exemplar atuação, da atriz e feminista, Irene Ravache, contabilizando desempenho na cozinha ( no filme ela é uma magnífica quituteira mineira ), ou nos espaços simbólicos de quem ainda vive ilusão e sonhos em romances de verão. 
      Observa-se, ao longo da cinematografia, que os filmes tem sido um importante interlocutor deste diálogo entre imagem e representação, promovendo a oportunidade  de circular outros sentidos  para o repertorio imagético que ancora as formas de representação da velhice  e  do envelhecimento/morte .Destaca-se especialmente, as configurações burlescas que a representação da mulher madura vem encontrando nas ultimas décadas. Já podemos agora conviver e fruir de novas imagens do corpo e do prazer feminino ainda, que este domínio, se realize dentro de um “gaze eyes masculino” em que a trajetória do olhar sob o quadro cinematográfico advem de um ponto de vista masculino (configuração e dependência da felicidade e prazer feminino atrelada à capacidade de sedução do olhar masculino).



 Realismo, poesia e ilusão: Elsa e Fred um amor de paixão. 

   Nos últimos anos, essa expressão visual de novas polaridades identitárias sobre amadurecimento e processos de envelhecimento, impactou sobre maneira, as formas de representação da mulher madura. Novos protagonismos sociais emergem orientando um olhar mais plural e multifacetado para o processo de envelhecimento feminino.
Le Goff[7](1976:98) chama atenção para o uso cientifico do documento fílmico, seja ele de ficção ou documental para análise cultural apontando que o filme...” não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que aí detinham o poder”. Para o autor, estes novos objetos de análise passam a ser encarados como fontes preciosas para compreensão dos comportamentos, visões de mundo, dos valores e das ideologias de uma sociedade ou de uma determinada época.
Alarga-se assim, o espectro de possibilidades de todo e qualquer filme constituir-se em objeto de conhecimento que ganha densidade metodológica com as análises filmicas empreendidas por Marc Ferro[8]. Em suas investigações o pesquisador sublinha as condições de produção, circulação e recepção das imagens que fomentam conteúdos para uma crítica autentica da complexa relação entre cinema e história da cultura. Nas análises sobre conteúdos dos filmes ( tema , fatos históricos e personagens cotidianos)  ele destaca a importância do analista decodificar o conjunto de imagens e sons em circulação, os diálogos presentes, os elementos persuasivos de que lançam mãos os personagens, para se construírem em cena, e as intensidades de ações que  imprimem determinadas estilos e modos de vida.

            Para o estudo das configurações da experiência estética e visual na representação filmica - de gênero -  na cinematografia contemporânea, valho-me da contextualização  da  mutante experiência histórica de ser e estar mulher nos espaços sociomediaticos que movem as formas de representação social na contemporaneidade . O cinema assim é visto como experiência de desejo utópico e não restrito a ilusão do movimento, mas proporcionando modos de ver e conhecer a realidade. Esta realidade está mediada por outras tecnologias que impactam substantivamente o corpo feminino, as formas reprodutivas que oferecem outros modos de periodicizar a vida e definir as práticas relacionadas a cada período. A mulher pode ou não ser mãe aos quarenta ou aos cinqüenta anos. Outra mudança substantiva emerge no desenho da unidade familiar cada vez mais, especialmente nos grandes centros, consagrando  a mulher como chefe de família. A longevidade não é acompanhada de multiplicação da prole. Assiste-se a cada dia, uma redução substantiva no número de filhos e um aumento progressivo da expectativa de vida. A cronologização da vida, na modernidade, mostra que o processo de agrupar pessoas em função da geração é totalmente distinto de fato de agrupar pessoas em função do estágio de maturidade. De acordo com Kohli e Meyer “...trata-se de chamar a atenção para o fato de que o processo de individuação, próprio da modernidade, teve na institucionalização do curso de vida uma de suas dimensões fundamentais. Uma forma de vida em que a idade cronológica era praticamente irrelevante foi suplantada por outra, em que a idade é uma dimensão fundamental na organização da vida social” (1986:45)[9]. Deriva daí a observação de que o fato de a idade cronológica não estar ligada a um aparato que domine a reflexão sobre os estágios da maturidade  demonstra também, a flexibilidade  desse mecanismo no que diz respeito a criação de novas etapas e redefinições de modelos simbólicos.

          Produto de uma parceria entre Argentina e Espanha, com apoio da Televisão Espanhola, o filme Elsa e Fred Um amor de paixão, comédia romântica com excelente aceitação do público e da critica foi tomada para análise da representação dos processos de velhice e amadurecimento no cinema contemporâneo.  A trama central move-se a partir de duas narrativas polarizadas sobre a velhice e os processos de envelhecimento. De um lado, a personagem da faceira Elsa, uma senhora de idade, mãe de dois filhos, avó, vizinha de Fred que passa a ser novo inquilino de um edifício médio de Madri. Fred um viúvo vem morar no edifício porque terminou de perder sua mulher e fica com seu cachorro Bonaparte, vivendo de remédios e suportando seu cotidiano solitário, somente interrompido pelos rompantes da filha, genro e neto. Esse cotidiano é arrombado quando, logo nas cenas iniciais, Elsa conhece Fred – Alfredo (Manuel Alexandre) por causa de uma atrapalhada. Ela bate na traseira do carro da filha de Fred frente aos olhos assustados do seu neto e, por isso, o ameaça de morte caso comente alguma coisa.
A assustadora ameaça não surte efeito, causando certo escândalo quanto à cobrança do conserto do carro da filha daquele novo vizinho. Alfredo (Fred) é um tanto hipocondríaco. Mas Elsa, que estava incumbida – muito à contra gosto – de entregar o cheque para sanar as despesas decorrentes do pequeno acidente/ incidente, mudará o cotidiano desse velhinho. O diretor assinala o desfecho da narrativa com o seguinte fragmento: Fred entreolha o apto da vizinha e se depara com uma enorme foto de Anita Ekberg no filme La Dolce Vita , de Fellini, vencedor de Palma de Ouro de Cannes em 1960. E é precisamente aqui que o diretor assinala o encontro amoroso dos vizinhos. O filme de Fellini serve como espaço de mediação entre a memória audiovisual e memórias da vida daquela senhora – Elsa. Ela coopta o olhar do público, não mais pelos dotes físicos que exibira na juventude, que pudera a fazer sonhar ser atriz como a Anita  do filme de Fellini.  Ela seduz o público por impor outro movimento de significações ao amor romântico - um olhar advindo da ilusão cinematográfica, um olhar pontuado por desafios e, que pelo mecanismo da inversão, da suspensão, da fruição e identificação que compraz uma senhora faceira que enfrenta uma doença terminal e ainda, assim tem muito humor e sonha em ter um grande amor para com ele mergulhar no universo imaginário da  Fontana de Trevi, em experiência mimética que proporciona o  premiado filme felliniano.  Com este posicionamento metalingüístico, a personagem abre-se ao público não mais como uma encrenqueira e confusa senhora de meia idade, ela invade para inverter o nosso olhar e apontar esta cegueira em que mergulha nosso cotidiano. A personagem anuncia novas temporalidades e identidades para abrigar a ilusão deste fragmento fílmico. 

       O filme Elsa e Fred do diretor argentino Marcos Carnevale é generosamente narrado como poesia do cotidiano, em que a compreensão e desejo humano fazem aflorar nobres sentimentos que se revelam de forma destilada. É um cinema que inova, pois vai buscar em fatos cotidianos, o drama da solidão, do envelhecimento e suas conseqüências para a saúde e qualidade de vida. É um cinema que se nutre da metalinguagem para falar de outro cinema, como fonte de ilusão num claro movimento de superar a dureza da realidade e de contradizer todo corpo medicalizado que a mídia e suas indústrias correlatas de cosméticos e medicamentos teimam em nos sufocar.
É um cinema que combina em precisão certeira o debate atual sobre a ilusão da realidade, sejam estas de ordem da subjetividade, das convenções genéricas ou das técnicas. A narrativa audiovisual, a instancia enunciadora não se dá em evidencia, pois o narrador é aquele que dirige o ponto de vista do espectador mediado pela câmera e por demais recursos narrativos de que o meio dispõe., e, no caso de  Elsa e Fred , as imagens do filme de Fellini, imortalizadas pela  fotografia presentificam o que está ausente.
     Outra  representação, associada à velhice, concentra-se no verbo de sentido - Perder: com a velhice perde-se a visibilidade, o emprego, o lugar, o assento, o companheiro, a mediacalizada” boa forma”, perde-se o brilho, a capacidade de dirigir carros, motos e aviões, perde-se autonomia,  a capacidade de operar, de ensinar, de trabalhar em atividades que exigem precisão e muitas horas ; independência, capacidade de decisão... Mesmo com o incremento da expectativa de vida, a representação da velhice continua sendo um lugar de perdas, e isso é suficiente, para produzir um discurso imagético interpelativo sobre o próprio conceito de vida.
            É  de perdas e cumplicidade que a relação amorosa da maturidade vai se desenhando no filme Elsa e Fred. Para manter um discurso sedutor, aos olhos do público,  para quem perdeu o viço, a saúde, aos poucos vem perdendo a liberdade de conduzir o próprio carro, as finanças, os amigos, memórias e espaços.  O filme inverte a pauta das perdas e ancora-se no discurso da faceirice e humor para falar dos ganhos da maturidade mostrando outras formas de liberdade ( Elsa: Ninguém vai imaginar que dois velhos bem vestidos vão dar o calote!), de cumplicidade( Elsa; Eu só queria ter alguém para encostar minha cabeça ), de solidariedade( Elsa: Sei que você não está bem por isso evitei de falar este assunto hoje) e convoca  à atenção do espectador   pela  interpelação em  uma estrutura narrativa que se constrói através da oposição de três tempos. O passado – em que a velhice era um momento de isolamento, retração, de espera da morte; o presente em que os padrões de velhice são radicalmente transformados em uma experiência cheia de atividades prazerosas e joviais. E do futuro em que um lado sombrio é apresentado pela doença e morte. A ida de Fred ao cemitério com o neto ( num sincronizado jogo de temporalidades imagéticas) e a ação dele sorrir  para o retrato de Elsa,  grudado no tumulo dela, agrupa para representar os movimentos da vida, a dinâmica do tempo e dos espaços convertidos em uma deliciosa e divertida   história de amor.
Conforme sustenta Pasolini “ o cinema  não evoca a realidade como a língua da literatura; não copia a realidade como pintura; não mima a realidade como o teatro. O cinema reproduz a realidade em imagem e som. E reproduzindo a realidade o que faz o cinema então? Expressa para a realidade pela realidade “.[10] 

 O filme Elsa e Fred  se institui portanto como um suporte de expressão realista , que possibilita abranger o sentido da realidade no mundo regido pela profusão de imagens. Torna-se  importante ordenar e relacionar estas imagens para restabelecer um sentido essencial. Este sentido rege-se pela presentificação do discurso de uma  poesia realista em que não há separação entre conteúdo e forma. Estes dois conceitos não se reduzem, de fato irão se complementar na configuração discursiva que vê na nostalgia mítica do passado a capacidade de inventar uma poesia, para subverter o cotidiano da velhice. Foi ainda Pasolini que teorizou sobre a realidade da vida e da morte quando afirma que:

          É assim absolutamente necessário morrer, porque, enquanto estamos vivos, falta-nos sentido, e a linguagem da nossa vida ( com que nos expressamos e a que, por conseguinte, atribuímos a máxima importância) é intraduzível.: um caos de possibilidades , uma busca de relações e significados sem solução de continuidade. A morte realiza uma montagem fulminante na nossa vida: ou seja, escolhe os seus momentos verdadeiramente significativos ( e doravante já não modificáveis por outros possíveis momentos contrários ou incoerentes), e coloca-os em sucessão fazendo do nosso presente, infinito, instável e incerto , e por isso não descritível  linguisticamente, um passado claro, estável e certo, e por isso bem descritível linguisticamente . Só graças a morte, a nossa vida serve para nos expressarmos.[11](1982:198)

O sentido da morte para Pasolini mostra que a vida ( compreendida como um espectro de infinitas possibilidades ) , em potencia, ao chegar ao seu fim vê-se imediatamente reduzida ao conjunto das obras que corpo consegui assinar e que agora, devem ser revistas e interpretadas, valorizadas ou, preservadas ou não pelos vivos, se eles sentirem necessidade disso.  Sim, porque o que chamamos de realidade pode ser entendido como uma linguagem da perspectiva da morte. Porque para Pasolini , o passado, as anterioridades míticas, o sagrado, incorporam-se a realidade, repensando as relações entre pensamento, linguagem e imagem.


 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ASSIS, Gláucia et ali.( org.) Gênero em Movimento: Novos olhares, muitos lugares. Editora Mulheres.  Florianópolis, 2007

AVELLAR, José Carlos. O chão da palavra. Cinema e Literatura no Brasil. Artemidia-Rocco, Rio de Janeiro, 2007.

AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas: Papirus, 1995.

BAZIN, André. “Por um cinema impuro -  defesa da adaptação” in: O Cinema – Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BENTES, Ivana (org.) Ecos do Cinema – de Lumiére ao digital. Editora UFRJ, 2007.

BENJAMIM, Walter. Obras Escolhidas: Magia e Técnica; Arte e Política. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense,1994.

BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematografo. Tradução Evaldo Mocarzel. São Paulo: Iluminuras, 2005.

CASETTI, Francesco. Teorías del Cine (1945-1990). Madrid: Ediciones Cátedra, 1994.

CHION, Michel. La Audiovisión. Introducción a um análisis conjunto de la imagen y el sonido. Paidós Comunicación, Barcelona, 1993.

DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice: Socialização e Processos de Reprivatização do Envelhecimento. São Paulo. Editora Universidade de São Paulo: Fapesp,1999.

FALEIROS, Vicente e LOUREIRO, Altair (org.). Desafios do envelhecimento: vez, sentido e voz. Coleção Redesenhando o Envelhecimento. Editora Universa., 2007.

GUBERN, Roman. Espejo de fantasmas: De John Travolta a Indiana Jones. Editorial Espasa Calpe, Madrid, 2003.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1989.

LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o Real: Sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Jorge Zahar editor. Rio de Janeiro, 2008.

MENDONÇA,  Maria Luiza.” Identidade e Sedução: representação do homem negro na revista Raça Brasil” in Representações do Masculino. Mídia, literatura e sociedade. Alínea Editora, Campinas, 2008.

MORAES, Geraldo e PETERS, D.(org.) Diversidade Cultural e A Convenção da UNESCO. Edição: Congresso Brasileiro de Cinema / Fundação Ford, 2006.

MORAES, Myriam.(org.) Velhice ou Terceira Idade. Estudos Antropológicos sobre Identidade, memória e política. Ed. Fundação Getulio Vargas. Rio de Janeiro. 2000.

MONTORO, Tânia e CALDAS, Ricardo (org.) De olho na imagem. Ed. Abaré, Brasília, 2006.
_____. Imagem em Revista. Ed. Abaré, Brasília, 2007 .

PASOLINI, Pier Paolo. Diálogo com Pasolini: Escritos (1957 -1984). São Paulo: Nova Stella Editorial, 1986.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... O que é mesmo Documentário. Editora SENAC: São Paulo, 2007.

RUMBLE, Patrick. Píer Paolo Pasolini: Contemporary  Perspectives. Toronto: University of Toronto Press., 1994.

WADJA, Andrzej. Um Cinema chamado Desejo. Editora Campus, Rio de Janeiro, 1989.
NOTAS

[1]  Doutora em Comunicação Audiovisual pela Universidade Autônoma de Barcelona. Professora e pesquisadora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Coordenadora da linha de pesquisa em imagem e som da Unb. Atualmente encontra-se em pos doutoramento em cinema na UFRJ.
[2] JODELET,  D. Representações sociais : um domínio em expansão . In: JODELET, Denise (org.) As representações sociais . Rio de Janeiro: UERJ,2001.
[3] ALMEIDA, A.M.O. A pesquisa em representações sociais: proposições teóricas - metodológicas : In : SANTOS , Maria de Fátima e ALMEIDA , Leda Maria(orgs.) Diálogos com a teoria das representações sociais . Recife, Editora da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 2005.  
[4] Laurentis, T. “ Rethinking womens cinema: Aesthetic and feminist theory. In Patricia Erensa(org.) Sexual stratagems: The world of women in film. Nova York: Horizon,1977.
[5] Asumpção, L. O. T. (org.) O idoso e o cinema.  Palestra proferida na Universidade Católica de Brasília. , Brasília,  Semana de Extensão da UCB, abril de 2007.
[6] Brayner, M.G. Pier Paolo Pasolini: Uma poética de realidade. Dissertação de mestrado apresentada ao programa de pós-graduação em Literatura. Departamento de Teoria Literária e Literaturas.  Universidade de Brasília, 2008. 
[7] Le Goff, J. “Documento / Monumento” in The Historian and the Film. Paul Smith(org.) Londres/ Nova York/Melbourne, Cambridge University Press,1976, pp.98.
[8] Ferro, M. Cinema e História. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro,1992.
[9] Kohli, M. e Meyer , J.W. Social structure and social construcction of life stages. Human Development(29),1986.
[10] PASOLINI, P.P. Empirismo Hereje. Trad. Miguel  Serras Pereira . Assirio e Alvim: Lisboa ,1982.
[11]. Idem., p. 198.